car crash
a instalação carcrash foi realizada no centro universitário maria antonia- usp e no sesc belenzinho (são paulo, 2011 e 2013), no palácio das artes (belo horizonte, 2011) e na caixa cultural (rio de janeiro, 2012)




Car crash e outros deslocamentos*
A batida dos carros de Car Crash de Marcos Gorgatti não fez barulho algum. Mas se tivesse som seria um daqueles balões das histórias em quadrinhos que imitam sons do mundo usando onomatopeias. Crash! Bang! Pow! O universo das H Qs e das artes gráficas em geral incluindo aí a sinalização de trânsito e o design de publicidade - são presenças marcantes no trabalho do artista. Sua pesquisa flerta a todo momento com as ditas “artes aplicadas”. Suas obras querem estar misturados no mundo e no cotidiano das pessoas, tal como as revistas compradas em bancas de jornal, as placas de transito e os logotipos de uma empresa. Imagens que nos habituamos a ver ser e nos perguntar quem as criou e, talvez, sem querer reconhecer ali um índice de criação propriamente.
O trabalho de Marcos Gorgatti usa essas formas já institucionalizadas: o desenho padrão de um carro, que não mostra um carro em particular, mas todos, no geral, ilustrações encontrados em livros didáticos, como no caso de Deslocamentos, ou a repetição da forma octogonal de uma placa de sinalização de trânsito. São signos familiares que aprendemos a ver mais como códigos do que como desenhos, imagens que decodificamos para agir, não nos atendo a seus detalhes ou possíveis interpretações. Os trabalhos da presente exposição apresentam esses desenhos-signos pretensamente pragmáticos, como a lhes devolver certa ambiguidade. Em Deslocamentos percebemos a carga ideológica dos desenhos da cartilha. Em Placa paisagem somos conduzidos por uma via inteiramente constituída por placas de PARE. Já em Car Crash, todo o peso trágico de um desastre automobilístico ganha ares de brincadeira de criança. Em cada um desses trabalhos parece estar em jogo um desejo de descondicionamento social, em nome, quem sabe de uma experiência menos mediada com o mundo.
Thais Rivitti
* texto do catálogo da exposição individual no Centro Universitário Maria Antônia (USP)
Entrevista: Car Crash, 2011, Interrupções de Maria Iñigo Clavo com Marcos Gorgatti*
Clavo Normalmente se entende que o valor de uso de um objeto é determinado pelas necessidades que este vai satisfazer, enquanto que o valor de troca descreve suas possibilidades de intercâmbio com outros bens. Os dois termos se complicam e se entrelaçam nas teorias marxistas, pois no final, o que se troca são valores de uso conforme a demanda. Pensava nesses antigos conceitos enquanto me contava como realizou “Car Crash” pois em sua história precisamente a obra a realizar uma viagem por esses estágios desde A primeira fase de produção. Como foi esse processo?
Gorgatti O projeto da instalação começou a oito anos atrás quando ainda estava na universidade. Ele surgiu a partir da ideia de transformar desenhos de placa de trânsito em objetos tridimensionais. Fiz os primeiros protótipos em pedra sabão nas aulas de escultura e em seguida construí algumas peças de espuma. O trabalho com espuma depende de equipamentos que somente uma fábrica dispõe. E para fazer o “Car Crash” foi necessário negociar com o proprietário da fábrica para que os funcionários e as máquinas interrompessem suas rotinas de cortes de colchões, almofadas do sofá e etc. para realizar um trabalho cuja principal preocupação eram as formas e as cores. Para minha surpresa, o proprietário da fábrica se interessou prontamente pelo projeto. Em relação aos funcionários envolvidos na produção, percebi certo interesse desconfiado de início com a minha presença, mas que em pouco tempo se transformou em uma participação ativa e no interesse em se envolver na construção das peças. Acho bem interessante a possibilidade de trazer, nesta conversa, a dimensão das experiências com as pessoas envolvidas na construção das peças, porque ela evidencia o caráter de negociação inerente ao próprio trabalho do artista em todo o processo.
Clavo A geometria de “Car Crash” remete à tradição da arte concreta que legitimava a tecnologia, as matemáticas, a ciência como parte do projeto desenvolvimentista que celebrava essa era a partir da vocação construtiva que, para Frederico Morais, tinha de ver com a vontade de ordenar o caos que acompanha as muitas correntes abstratas da história da arte no Brasil. Ordenar e construir a partir de uma “lírica humanista”, uma sociedade de acordo com as aspirações do projeto nacional. Se pode dizer que a obra de novo interrompe esse discurso em dívida com o desenvolvimento, para mostrar seu fracasso ou incluir sua fralde, sua vulnerabilidade: a cena do acidente ou a falha das máquinas, o perigo, a sua ruína tecnológica e a desconfiança.
Gorgatti Acho bem interessante a imagem que você trás entre o acidente e o fracasso ou a vulnerabilidade da própria ideia de desenvolvimento que, para mim, colocam em perspectiva a a própria vida nas grandes cidades e que desafiam os fundamentos da ciência e da tecnologia para lidar com questões fundamentais da existência nesses espaços. Acho que o acidente é, também, o confronto entre o homem e a máquina que, tanto serve para aumentar suas potencialidades - como extensão do seu corpo - quanto para ameaçar sua integridade física.
Clavo Penso que com esta obra, ao interromper intervir na rotina diária dos trabalhadores, você está renomeando o trabalho, operando na linguagem da sua definição. Mas se pensarmos no momento de sua exposição, há mais elementos colocados em jogo. Walter Benjamin se detia no valor de culto e no valor de exposição. O primeiro está ligado à função ritual e mágica da arte originária que se desvanece quando começa ser exposto. Efetivamente, “Car Crash” transita por diversos lugares do trabalho desde a fábrica até o espaço público. O interessante é que, o material (espuma), por ser foto sensível, é destruído como consequência da própria exposição, pela decomposição. Possuí-la será sempre um desejo frustrado: significa que ele frustra novamente o sistema mesmo que esboçamos. Nos termos de Benjamin, portanto, o valor da exposição implicarias seu desvanecimento, não só da sua áurea mas do objeto mesmo de olhar.
Gorgatti A espuma exposta á luz oxida muito rapidamente, daí o caráter temporário e efêmero da obra. Para preservá-la, seria necessário guardá-la em um espaço privado de luz e, portanto longe do olhar. Por isso, penso neste trabalho mais como uma instalação efêmera do que como um conjunto de objetos escultóricos. E na montagem dele no Centro Cultural Maria Antônia (USP), a mudança de escala (existem algumas versões do trabalho menor escala) proporcionou uma experiência quase que arquitetônica com os objetos, no sentido de que as peças passaram de terminar o percurso da pessoa pelo espaço.
Clavo O acidente cria um estado de exceção na cidade. Se a cidade de São Paulo se constrói pela mobilidade no asfalto como eixo principal de funcionamento, o acidente corta o fluxo e torna sua atividade vulnerável. Essa fragilidade do sujeito frente às máquinas dialoga com o material de espuma da espuma de “Car Crash” que cumpre bem a função de amortecer, proteger e criar um lugar confortável talvez até para o descanso.
Gorgatti O nome do trabalho surgiu depois de um acidente de carro que sofrí em São Paulo em que não me machuquei mas o carro que dirigia ficou completamente destruído.
São Paulo é uma cidade que cresceu dando prioridade ao transporte individual por razões políticas econômicas. Me interessa nesse trabalho fazer uma referência direta não só à arte concreta paulistana mas ao seu contexto econômico e político que determinou o desenvolvimento da cidade dessa forma.
Outra referência importante pra mim nesse trabalho foi o filme “Crash, estranhos prazeres” de David Cronenberg, em que ele leva ao extremo a relação entre o sujeito e objetos fetichizados como automóvel.
Maria Iñigo Clavo é doutora e pesquisadora da Universidade de Essex. Marcos Gorgatti é mestre em processos artisticos contemporâneos pela udesc
* Entrevista feita para exposição “Car Crash” na Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes – de 12 de dezembro de 2011 a 15 de janeiro de 2012 em Belo Horizonte.